Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade, pseudónimo de José Fontinhas, é um dos mais lidos e traduzidos dos poetas portugueses. O poeta nasceu no Fundão a 19 de janeiro de 1923 e faleceu a 13 de Junho de 2005. no Porto. A sua principal obra é "As mãos e os frutos" (1948 )Contemporâneo dos movimentos Neorrealista e Surrealista, quase não acusa influência de quaisquer escolas literárias propondo uma poesia elementar cuja musicalidade só encontra precedentes na nossa lírica medieval ou em poetas como Camilo Pessanha que Eugénio de Andrade assume, a par de Cesário Verde, como um dos seus mestres (adaptado Portal da literatura)


Poema à Mãe
No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
          Era uma vez uma princesa
          no meio de um laranjal...


Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

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