Poema da urgência

Se não tivesses vindo já, nesse momento
insistentemente    revelador.
Se não tivesses chegado com tuas mãos amadas,
os silêncios bateriam   nas paredes
da casa que já não era infância.
Sobre mim cairiam as vozes
que há muito deixaram de se ouvir
e o piar soturno dos pássaros
preencheria o profundo recorte do meu ser.
Se não tivesses vindo, nesse momento
impressionantemente necessário,
se não tivesses espalhado o teu olhar de colo,
iriam revelar-se, em mim, as marcas vivas
das conturbadas bocas da angústia
e eu permaneceria presa à curva obsessiva
desse gesto perdido de mulher esperando.
Se não tivesses vindo com teus olhos límpidos,
nesse momento absolutamente irreversível.
Se não tivesses vindo no espírito puro da manhã,
a casa  ter-me -ia consumido como uma aranha,
nos seus recantos de invisível teia
e eu teria ficado,  irremediavelmente perdida,
no caminho, sem esperança, de perder-te.
                                                               
                                                                 Isa Sousa


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