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A mostrar mensagens de julho, 2018

Nascer

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Porque razão o primeiro som que se ouve dentro de uma mãe é um coração a bater?                                      Como um cavalo a galope ruma para o   futuro. O   corpo da mãe é a sua casa temporária,   mas o coração dela bate com ele como se fossem um só. Por isso, mãe e filho nascem ao mesmo tempo .E perante os nossos olhos maravilhados assim se anuncia uma nova vida. Aquele pequeno coração,    que agora   bate ,dedilha a mais maravilhosa das músicas - a de existir. Com ele, toda a natureza   parece dizer:- Estás aqui! Breve irás   mergulhar neste estranho mundo onde moldado como o barro também deixarás nele   a tua marca .   Por fim, como uma flor de vida ainda por abrir ,esse pequeno coração crescerá num ser que, de frágil se tornará forte, desejoso por abraçar e amar  o mundo e todas as possibilidades abertas à  s...

Discriminação

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                                       Certas palavras, como portas fechadas, precisam de abrir-se nas mentes infantis para serem compreendidas. Joaninha perguntou:."O que é discriminação, mãe?" Sorrindo, a mãe contou-lhe   uma história:" Quando as flores amarelas, brancas, lilases e de muitas outras cores apareceram, para além das vermelhas, todos se maravilharam. Só as flores vermelhas, maldosas e   superiores, ficaram descontentes. Cresceram, por isso, em volta do fio de água que regava o campo e sugaram-na toda. Todas as flores murcharam menos as vermelhas e a beleza dos campos coloridos de diferentes cores desapareceu. Uma monótona mancha preencheu todo o campo .Portanto, minha filha, nunca rejeites quem não é igual a ti .Como as flores, os homens só se   tornam melhores e mais belos na diferença e harmoniosa existência conjunta."     ...

Jorge Luiz Borges-"O Milagre Secreto"

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O MILAGRE SECRETO Do livro Ficções de Jorge Luiz Borges "As armas convergiram sobre Hladik, mas os homens que iam matá-lo estavam imóveis. (...) Dormiu ao cabo de um prazo indeterminado. Ao despertar, o mundo continuava imóvel e surdo. Em sua face a gota de água perdurava (...). Outro “dia” passou, antes que Hladik compreendesse. Um ano inteiro solicitara a Deus para terminar seu trabalho: um ano lhe concedia sua onipotência. Deus laborava para ele um milagre secreto. (Borges, 1972: 162)"

Adeus

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Adeus...   Chamo-me Camila Rosa .Não conheci pai nem mãe. Aquilo que a sorte por nascimento me tirou, deu-me Deus  pondo no meu caminho anjos que me ampararam durante a vida.  Fui  exposta, recém-nascida, na roda do Porto, numa escura, fria e chuvosa noite de Fevereiro, do ano de 1820 . Nunca casei, nem tive filhos. Ainda hoje, guardo religiosamente o bilhete deixado junto a mim, nesse dia. Nele constava a descrição do traje que levei: uma camisa de paninho nova, dois cueiros de musselina cor-de-rosa esvaído, uma coifa de cassa, uma faixa duma barra de vestido bordada a verde e amarelo, dois lencinhos de cassa forrados, uns manguitos de baetão novo e como sinal ,uma fita roxa atada na coifa. Também constava o pedido de ser entregue a  ama limpa, por certo tempo.    As gotas de chuva que me caíram no rosto nessa noite, misturaram-se com o  sabor amargo das lágrimas de quem me  entregou Esse sabor, impregnou-me  a alma ...

Gerês

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  Ao pé da pedra dura, a breve e frágil vida é como o sopro leve da brisa nos pinhais e no entanto  brota, mal morre renascida,         como raiz rompendo a pedra  entre as demais.                                                  I.F.

Momentos únicos

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                                                                                                        Pastorisa gosta de brincar com as bolas. Cadela brincalhona é também muito   teimosa. Tenta todos os truques para me obrigar a brincar com ela. Coloca,duas vezes, uma bola no meu regaço e provoca-me ladrando. Indiferente, bebo chá de cidreira num copo de vidro. Ela sobe para o sofá, puxando-me pelo casaco. Sacudo-a, desequilibro-me   e faço que   caio ao chão. Pastorisa ocupa, enfim, o meu lugar, vitoriosa. Iluminada pelo sol a bola brilha sobre o meu casaco verde, debaixo da sua pata peluda.                              ...

Jorge Luiz Borges-"As ruínas circulares"

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AS RUÍNAS CIRCULARES Do livro Ficções de Jorge Luiz Borges "Sonhou-o ativo, caloroso, secreto, do tamanho de um punho fechado, cor grená na penumbra de um corpo humano, ainda sem rosto ou sexo; com minucioso amor sonhou-o, durante quatorze lúcidas noites. A cada noite, percebia-o com maior evidência. Não o tocava: limitava-se a testemunhá-lo, observá-lo, talvez corrigi-lo com o olhar. Percebia-o, vivia-o, de muitas distâncias e ângulos. Na décima quarta noite, roçou a artéria pulmonar com o indicador e após todo o coração, por fora e por dentro. O exame o satisfez. Deliberadamente não sonhou durante uma noite: logo retomou o coração, invocou o nome de um planeta e empreendeu a visão de outro dos órgãos principais. Antes de um ano chegou ao esqueleto, às pálpebras. O pêlo inumerável foi talvez a mais difícil tarefa. Sonhou um homem inteiro, um moço, mas este não se incorporava nem falava, nem podia abrir os olhos. Noite após noite, o homem sonhava-o adormecido. " ...