João de Deus
João de Deus
de Nogueira Ramos (São Bartolomeu de Messines, 8
de Março de 1830 — Lisboa, 11
de Janeiro de 1896), mais conhecido por João de
Deus, foi um eminente poeta lírico e pedagogo. Surgiu nos finais do ultra-romantismo. A sua poesia distinguiu-se, sobretudo, pela grande
riqueza musical e rítmica. Gozou de
extraordinária popularidade, foi quase um culto, sendo ainda em
vida objecto das mais variadas homenagens. Foi considerado o poeta do amor e
encontra-se sepultado no Panteão Nacional da Igreja de Santa Engrácia, em
Lisboa.
Propôs um
método de ensino da leitura, assente numa Cartilha
Maternal por
ele escrita, sendo ainda utilizado.
Depois de ter frequentado, durante dez anos, o curso de Direito em Coimbra e se relacionou com elementos da Geração de 70,sobretudo Antero de Quental eTeófilo Braga. A sua obra abrange vários géneros, da ode à elegia, do epigrama à fábula, passando pelo soneto. Grande
parte da sua obra poética está presente em Flores do Campo (publicada
em 1868), Folhas Soltas (1876) e Campos de Flores.
Amor
Não vês como eu sigo
Teus passos, não vês?
O cão do mendigo
Não é mais amigo
Do dono talvez!
Ao pé de uma fonte
No fundo de um vale,
No alto de um monte
Do vasto horizonte,
Sem ti estou mal!
Sem ti, olho e canso
De olhar, e que vi?
Os olhos que lanço,
Acharem descanso,
Só acham em ti!
Os ventos que empolam
A face do mar,
E as ondas que rolam
Na praia, consolam
Tamanho pesar?
As formas estranhas
De nuvens que vão
Roçando as montanhas
Em ondas tamanhas
Distraem-me? Não!
A pomba que abraça
No ar o seu par,
E a nuvem que passa,
Não tem essa graça
Que tens a andar!
Parece o pezinho,
De lindo que é,
Ligeiro e levinho
O de um passarinho
Voando de pé!
O rosto, há em torno
Da pálida oval,
Daquele contorno
Tão puro, o adorno
Da auréola imortal!
Não sei que luz vaga,
Mas íntima luz,
Que nunca se apaga,
Me inunda, me alaga,
Se os olhos lhe pus!
Eu amo-te, e sigo
Teus passos, bem vês!
O cão do mendigo
Não é mais amigo
Do dono talvez!
João de Deus, in 'Campo de Flores'

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