Herberto Helder

HERBERTO HELDER, (Funchal ,Ilha da Madeira,1930- Cascais,2015).
Depois de uma rápida passagem pelo curso de Direito, em Coimbra,
frequentou durante três anos a Faculdade de Letras de Lisboa.
Frequentou  o Café Gelo,em Lisboa, ao lado de Mário Cesariny,
Luiz Pacheco e outros poetas e publica o seu primeiro livro,
O Amor em Visita, em 1958. Foi distinguido em 1983 com o
Prémio de Poesia do Pen Club Português, pelo livro A Colher
na Boca. Em 1994, foi-lhe atribuído o Prémio Pessoa, distinção
que recusou.  Considerado um dos maiores poetas europeus
contemporâneos, a sua poesia é viva e irrequieta, de questiona
mento  incessante do seu acto poético, transpondo limites para
além do seu contexto histórico-social Trata-se de uma verdadeira
"poética de vanguarda".





TRÍPTICO

                                        II
Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
— E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
— não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,

que te procuram.



(excerto do poema «Tríptico», publicado em A Colher na Boca, 1961)

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