Fiama Hasse Pais Brandão
Escritora, poetisa, dramaturga, ensaísta e tradutora portuguesa, nasceu em Lisboa a 15 de Agosto de 1938 e morre em Lisboa em19 de Janeiro de 2007.
A sua infância foi passada entre uma quinta em Carcavelos
e o St. Julian's School. Foi estudante de Filologia Germânica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, tendo sido um dos
fundadores do Grupo de Teatro de Letras. Foi casada
com Gastão Cruz.
A sua obra caracteriza-se por uma grande intensidade da
palavra, uso de uma poesia discursiva por vezes fragmentária. Participante do
movimento poesia 61 revolucionou a
linguagem poética portuguesa dos anos 60 . A sua poesia revela, frequentemente,
imagens construídas a partir da natureza e impõe-se
pela busca de uma expressão original, onde as palavras tentam evocar uma
essência perdida, anterior à erosão do tempo e do uso corrente.Profundamente inovadora
desencadeia uma riquíssima reflexão sobre a arte poética como percepção
afetiva do real.
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Nada tão silencioso como o tempo
Nada tão silencioso como o tempo
no interior do corpo. Porque ele passa
com um rumor nas pedras que nos cobrem,
e pelo sonoro desalinho de algumas árvores
que são os nossos cabelos imaginários.
Até nas íris dos olhos o tempo
faz estalar faíscas de luz breve.
Só no interior sem nome do nosso corpo
ou esfera húmida de algum astro
ignoto, numa órbita apartada,
o tempo caladamente persegue
o sangue que se esvai sem som.
Entre o princípio e o fim vem corroer
as vísceras, que ocultamos como a Terra.
Trilam os lábios nossos, à semelhança
das musicais manhãs dos pássaros.
Mesmo os ouvidos cantam até à noite
ouvindo o amor de cada dia.
A pele escorre pelo corpo, com o seu
correr
de água, e as lágrimas da angústia
são estridentes quando buscam o eco.
Mas não sentimos dentro do coração que
somos
filhos dilectos do tempo e que, se hoje
amamos,
foi depois de termos amado ontem.
O tempo é silencioso e enigmático
imerso no denso calor do ventre.
Guardado no silêncio mais espesso,
o tempo faz e desfaz a vida.
Fiama Hasse Pais Brandão
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