David Mourão - Ferreira
David Mourão-Ferreira
Escritor português (Lisboa, 24.2.1927 – Lisboa, 16.6.1996): Licenciou-se em Filologia Românica (1951) pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A sua obra marca todos os géneros literários. Nela faz a celebração do erotismo e do corpo feita em palavras. Autor dos mais belos poemas de amor da literatura portuguesa. Avesso a movimentos ou a correntes, rejeita o neorrealismo recusando o aproveitamento da poesia para fins utilitaristas. Revalorizando o lirismo e o imediatismo da inspiração tem em José Régio , Almeida Garrett, Octavio Paz e T. S. Eliot, e autores franceses como Paul Valery e Proust as figuras de inspiração e referência para a sua formação clássica.
E por vezes
E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos.
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
o que a noite nos fez em muitos anos.
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos.
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos.
E por vezes sorrimos ou choramos.
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.
David Mourão-Ferreira
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