Muito de nada
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| Almada Negreiros |
Eunice assomava na janela, rosto vermelho de tanto engomar. Cabelo enrolado, remoía uma praga colada à boca, a cabeça pendendo de tanto trabalho. Seus braços ,magros, doíam no vaivém do ferro e os olhos cansados de tanto fixarem as peças de roupa, deslizavam como ondas. Por isso, Eunice abençoava a hora em que, privada de quase tudo mas, sentindo-se ainda privilegiada, libertava a carga, abotoava o velho casaco vermelho , soltava os cabelos ao vento e subia mais uma vez a rua inclinada apreciando aquele breve instante em que o sol pinta o céu de rosa e laranja e vai descaindo até se sumir na linha do horizonte. Depreciava a vida dura, sem deprimir. Eunice não tinha tempo para desperdiçar a felicidade. Sorvia-a em qualquer gota de prazer.
I.F.

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