A minha festa de finalista


Aquele último dia de Setembro de 1969 marcou o fim de um ciclo e o começo de uma nova etapa, na minha vida de finalista do Liceu Nacional do Funchal. Naquela época, a ditadura salazarista estava no auge e a repressão atingia grande parte da sociedade portuguesa. A juventude era arrastada para uma guerra em África, sem sentido. Muitos dos nossos amigos e colegas partiam, para não mais voltar. A contestação estudantil crescia de dia para dia. Com dezassete anos eu bebia a vida como uma taça ébria de energia e esperança. Comigo, os meus colegas de liceu também se despediam rumo a novos destinos. Vestidos com os nossos trajes académicos, de capa e batina, éramos como andorinhas em bandos procurando caminhos. Chegara o dia da festa dos finalistas há muito esperado. Um cortejo alegórico constituído por vários carros simbolizando os diferentes cursos percorreria, à tarde, uma das avenidas principais do Funchal seguindo-se um baile de despedida.Nas nossas curtas vidas esse acontecimento marcante agitava a nossa imaginação e enterrava as horas amargas dos exames, as saudades dos amigos que deixaríamos e a incerteza do futuro. Reunimo-nos junto ao portão do Liceu. À sua frente um largo orlado de frondosas árvores estava preenchido por numerosos carros enfeitados com os símbolos dos diferentes cursos.Em cima, como debruçado sobre o largo o velho liceu, igual a todos os outros construídos nesse período, mostrava a sua fachada austera onde a porta central se destacava simetricamente ladeada por uma fila de janelas altas e iguais. Uma grande escadaria descia até ao portão principal. Os seus degraus registavam memórias da longa correria dos alunos escada acima, escada abaixo e quem sabe se não guardaria também os desabafos, desgostos, amores e desamores de tantos jovens que ali tinham passado. O reitor e alguns professores, de ar sisudo a contradizer um sorriso condescendente e orgulhoso, assomavam na porta para nos observar. Rapidamente subimos para os carros e como enxames em favos de mel estávamos preparados para iniciar o desfile.Eu pertencia ao grupo dos aspirantes ao curso de medicina. Deitada numa maca improvisada exibia pensos e ligaduras, rodeada de doutores prontos a espetar-me com uma seringa gigante ou a enfiar-me pela boca abaixo, um frasco inteirinho de comprimidos.Assim atravessamos a avenida em alegre algazarra perante os gritos, assobios, ditos e palmas da população que nos saudava e acarinhava. Os “futuros doutores” despediam-se rumo ao amanhã que não podia imaginar-se senão risonho.O cortejo terminou junto à velha Sé do Funchal, orgulhosa do seu estilo manuelino, onde registamos em muitas fotografias esse momento inesquecível. Ainda hoje tenho guardada, na minha caixa de recordações, essa fotografia a preto e branco.Mas o dia estava longe de terminar. Um longo baile de despedida esperava-nos noite fora.Então seguiu-se uma longa azáfama de preparativos, maquiagem, cabelos, roupa e todos os pormenores que nos transformariam nos “príncipes” e nas “princesas” da festa. Encontrámo-nos numa das boîtes, hoje discotecas, mais badalada do Funchal. O edifício, de apenas um piso, destacava-se pelas suas luzes amarelas e azuis intermitentes entre os milhares de luzinhas que assinalavam as casas.A noite estava estrelada.A música vibrava alta. Os Platters, os Rolling Stones os Bittles,o Adamo, o Gilbert Bécaud, o Roberto Carlos e outros tantos cantores dos anos sessenta cantavam aos nossos ouvidos como se ali estivessem.Os pares rodavam na pista, ora lentamente, ora em grande agitação. Por vezes formávamos uma grande cobra ondulando ao som da “Banda” e da “Há quem diga que a cachaça é água…”Eu, embebedada pela música e pelas gasosas geladas ”curtia” o momento…Por volta das três da manhã, já cansados, reunimo-nos junto às escadas da discoteca. As violas que alguns colegas tinham trazido libertaram o seu trinar saudoso. As nossas vozes uniram-se cantando a “Trova do vento que passa “ do Manuel Alegre. A nostalgia envolvia-nos num manto doce e triste. Sentíamo-nos irmanados na imagem de uma pátria prisioneira, sem perspectivas, num país atrasado e reprimido, que era preciso mudar. A guerra em África pairava como uma ameaça que nos levaria, quem sabe, os entes queridos para longe devorando-os ou incapacitando-os…Os mais ousados também partiriam, a salto, escapando à guerra. Anos difíceis esses! A juventude morria por uma causa que a maioria não defendia, fosse por ignorância fosse por verdadeira oposição. As horas corriam velozes e a alvorada em breve marcaria a sua chegada. Na nossa juventude inconstante os instantes de tristeza dispersavam-se como o nevoeiro numa manhã de sol e pouco depois a alegria voltava a despontar. Sem parar de rir, como bons camaradas, resolvemos então assistir o nascer do sol num dos vários miradouros que encimavam algumas das colinas do Funchal. Lá do alto o panorama era esplêndido. A cidade ainda adormecida mergulhava na escura noite estrelada .Milhares de luzinhas em anfiteatro desciam pelas diversas encostas até ao mar. O luar bordava uma rede prateada e ondulante no mar escuro. Estávamos suspensos no silêncio da noite esperando o amanhecer.Aos poucos, na linha do horizonte sol acordava pintando uma cor rosada e fresca no céu que diluía a escuridão. As estrelas e a lua despediam-se de nós. A angústia do adeus e a esperança do porvir fundiam-se na magia desse instante e anunciavam um novo começar. Embora dourado pelo filtro do tempo, este episódio da minha juventude continua a projectar a sua luz invisível na minha vida. Através da memória vem visitar-me numa sensação de alegria.Com ele aprendi a importância que as vivências colectivas têm na nossa vida e quanto elas são necessárias para a nossa realização enquanto seres humanos.

I.F.

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