Adeus
Adeus...
Fui
exposta, recém-nascida, na roda do Porto, numa escura, fria e chuvosa
noite de Fevereiro, do ano de 1820 . Nunca casei, nem tive filhos.
Ainda hoje, guardo religiosamente o bilhete deixado
junto a mim, nesse dia. Nele constava a descrição do traje que levei: uma camisa
de paninho nova, dois cueiros de musselina cor-de-rosa esvaído, uma coifa de
cassa, uma faixa duma barra de vestido bordada a verde e amarelo, dois
lencinhos de cassa forrados, uns manguitos de baetão novo e como sinal ,uma
fita roxa atada na coifa. Também constava o pedido de ser entregue a ama limpa, por certo tempo.
As gotas de chuva que me caíram no rosto nessa noite, misturaram-se com
o sabor amargo das lágrimas de quem
me entregou Esse sabor,
impregnou-me a alma e nunca mais me
abandonou, ao longo de todos estes anos. Sei que foram fortes as razões pelas
quais nunca me procuraram.
Minha ama de leite foi a mãe que nunca tive.
Com ela e sua família, pude ter uma infância feliz. Fui criada , em Ovar,
juntamente com António, seu enteado, meu
companheiro de muitas brincadeiras de criança. Mais tarde, António viria a casar-se
com a
Emília, com quem ainda vivo. Emília tem sido, para mim, a irmã mais nova
que eu poderia ter tido. Após o falecimento da minha ama, continuamos a habitar
juntos na casa que nos deixou. Infelizmente, António já não se encontra entre nós .
Nestes últimos dias, acamada e sem forças,
algo me diz que em breve, me reunirei
aqueles que me esperam na outra vida. É na dureza dos caminhos da existência, que a amizade nos ajuda a consolarmos as mágoas e a vencermos
a adversidade .
Encontro-me, nesta hora difícil, gravemente
doente ,em casa do meu compadre Bernardo. Estive presente, no passado Julho, nos últimos momentos da Conceição, sua esposa e minha grande amiga
e colega da escola. Emília é agora a nossa
única companhia, minorando o sofrimento com a sua verdadeira amizade . Convivi com Bernardo e Conceição quando
casados. Vi crescer os seus três filhos.
O mundo treme sobre os meus pés! Também eu o
estou deixando. Já ouço, ao longe, os sinos tocando! Em breve, tocarão por mim.
Antes de partir, quero deixar,
por testamento, a meu compadre Bernardo a quantia de 300.000 Reis que tenho empregue no negócio do
calçado e o remanescente da herança à
Emília, que comigo tem vivido e ainda
vive. Quero, também, deixar 30 missas
por mim e 30 missas pela ama que me
criou.
O tabelião ,ainda hoje, irá entrar por aquela
porta e registar a minha última vontade.
Depois, poderei fechar os olhos em paz e entregar-me nas asas do meu anjo em
direcção ao céu Estou confiante que tudo fiz para merecer a amizade dos que
amei e nunca desejei mal a ninguém.
Parto com Deus e para Deus.
Camila
Rosa
Setembro de 1870
(Ficcionado a partir das investigações genealógicas de Manuela Alves)
(Ficcionado a partir das investigações genealógicas de Manuela Alves)

belíssimo trabalho! parabéns!
ResponderEliminarMuito obrigada
EliminarSimplesmente "delicioso", adorei! Parabéns à escritora.
ResponderEliminarMuito obrigada
EliminarEspectacular recriação! Faço votos para que a Isabel se decida a entrar no caminho da genealogia porque quando entrar nunca mais vai querer sair!
ResponderEliminarMuito obrigada
EliminarBelíssimo trabalho. Parabéns às duas.
ResponderEliminarAdorei o texto. A minha Trisavó foi registada como filha de pais incógnitos. Não sei se deixada na roda de Portalegre, infelizmente na certidão de baptismo isso não é mencionado, nem sei se consigo encontrar algo mais sobre ela. Adorei o texto. Acho que qualquer pessoa que tenha familiares "enjeitados" acaba por sentir uma ligação a esse texto. Parabéns.
ResponderEliminarMuito obrigada
EliminarTão terno e doce. Muito obrigada pela partilha, Manuela.
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